BEDA / Pedestre Vivo*

Para além do estranhamento pelo uso do tempo verbal, a campanha veiculada nos ônibus municipais de São Paulo (na imagem acima) para os passageiros que logo mais se transformam em pedestres em algum momento, encerra a mensagem do perigo que vivemos todos nós, cidadãos desta metrópole, em simplesmente caminhar por ela.

O meu pai já nos advertia, a mim e a meus irmãos, há tantos anos – “Quando for atravessar a rua, olhe para um lado, olhe para o outro, olhe para trás, olhe para frente e olhe para cima para ver se não há algum avião caindo na cabeça!”.

O Gil já sabia: o tempo é rei e a nossa vida pode estar por um segundo (Tempo Rei). E eu acrescento: às vezes, por um passo. Neste caso, a velocidade (tempo X distância) torna-se fundamental para escaparmos de sermos colhidos pelo motoboy que se dirige urgentemente para entregar o frasco de remédio que salva uma vida ou para levar o vestido de festa tardiamente pronto para o casamento de logo mais à noite.

Lembro-me de um episódio de alguns anos que me deixou perplexo pelo sincronismo macabro que o engendrou. Cinco passos a menos ou a mais, por exemplo, teriam salvado a vida da garota esmagada pela massa do mini guindaste atraído do alto do edifício em construção na Paulista até a calçada coberta por um toldo azul, que deveria proteger os passantes de pequenos objetos que despencassem do alto. Neste caso, a precisão cirúrgica do destino mostrou-se insuperável.

Imaginei, à época, que tivesse ela se apressado em encontrar o namorado na porta do cinema ou se atrasado para dar uma ou duas penteadas a mais em seus cabelos, a supérflua paixão ou a preciosa vaidade teria nos salvado de vermos empastelado de sangue na calçada a sua cabeça que, um pouco antes, dava expressão a todas essas suas necessidades…

*Texto de 2012

O BEDA é uma aventura compartilhada por: Lunna Guedes / Darlene Regina / Mariana Gouveia / Cláudia Leonardi

7 pensamentos sobre “BEDA / Pedestre Vivo*

  1. Pingback: beda – As mentiras que esquecemos de contar. | O Outro Lado

  2. Pingback: …o mais cruel dos meses – Catarina voltou a escrever

  3. Oi, Obduliono!
    Temos alguns amigos em comum 😀 Atravessar a rua uma aventura, que dirá viver! Ela se decidi por um triz!
    Beijus,

  4. Fosse eu, no caso, teria passado minutos antes e saberia do incidente horas depois e iria sorrir ao agradecer por estar sempre no meu horário para o café (nunca para namorado ou cabelereiro) e para com as palavras que se enfileiram primeiro por dentro. rá

    • Lunna, se houver destino traçado, o sincronismo acontece apesar de se atrasar, se adiantar ou ao se cumprir o horário. No meu caso, sempre me atrasaria, né? Rs…

  5. Pingback: As mentiras que contamos – Devaneios e Poesias

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