Projeto Fotográfico 6 On 6 / Nós Dois / Nós Todos

Nós dois fomos muitos. Todos vocês, seres especiais que estão ou passaram por minha vida, desde Tarzan, Cloé e Fofinha, me tornaram uma pessoa melhor. Tive envolvimento pessoal com cada um de vocês, amigos naturais. Saberia reconhecê-los se ou quando nos reencontrarmos, com personalidades memoráveis sob manifestações diferentes?

Nós Dois (2)
Betânia

Betânia, pequena tão presente como se fossem vinte ao mesmo tempo. Ciumenta, banguela de um canino, a lhe conferir um sorriso involuntário, quase de escárnio, chega a ser simpática. Grandes orelhas, desproporcionais à pequena cabeça, chegou em casa menor ainda, uma “ratazana” abandonada. Com o tempo, mais experiente, está deixando de confrontar a autoridade das mais velhas, substituindo o comportamento belicoso por outro, mais conciliador… às vezes. Da espécie “Cat-Dog”, sobe com facilidade a mesas, telhados e muros, sobre os quais passeia com a agilidade de uma felina e a curiosidade de uma alcoviteira. Minha companheirinha de escrita e leitura, igualmente, troca rapidamente minha atenção por qualquer movimento inusitado denunciado por algum som vindo de fora. Através de sua “irmã”, Romy, está ganhando notoriedade nas redes sociais com a alcunha de “Cu Preto”. Inquieta, antes de dormir, emite um longo suspiro digno da inocência em pessoa.

 

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Frida

Frida, nós dois vivemos tantos momentos juntos… Agora que a chama que lhe animava o corpo se foi, está mais presente do que nunca. Resta a falta que faz seus olhinhos de avelã, sua timidez, sua invisibilidade. Sim, porque você conseguia se esgueirar silenciosamente por entre os obstáculos e se postar debaixo dos pés das cadeiras e mesa de jantar ou no canto na sala ou debaixo do carro na garagem. Só ressurgia do nada para pedir um petisco ou um pouco de carinho. Era comum colocar sua pata em meu braço enquanto eu escrevia no computador. Conseguia seu quinhão de atenção, afagos e uma espécie de permissão para subir ao sofá. Deixada por último na única gestação de sua mãe, Domitila, como ninguém a quis, ficou conosco. Até parece que essa rejeição a afetou. Sempre foi arredia. Estava ganhando mais confiança e sua recente ousadia pode ter lhe custado a vida. Ou terá sido apenas a irresponsabilidade de alguém que descia a cem por hora em uma rua de bairro? Frida – ainda que permanentemente invisível – estará sempre em meu coração.

Nós Dois (3)
Domitila

Domitila um dia caiu em uma vasilha de comida das cachorras de casa. Não sabemos como se deu. Apenas encontramos um bicho com sarna, banhado de tinta por obra e arte de crianças ou adultos descerebrados. Tão feinha, com a pele toda enrugada, que a apelidei de “Etezinho”. Ganhou o nome de Domitila. Nunca imaginamos que ficasse tão garbosa. Cresceu linda e forte, a ponto de chamar a atenção do Sultão, o altivo galã-cachorro da nossa rua. De seu caso de amor, nasceu alguns filhotes, entre elas, Frida. As duas, inseparáveis. Ao fazer carinho em uma, teria que fazer em outra. Um hábito que desenvolveu foi se acercar de mim assim que eu começava a varrer o quintal. Como a afastava com chamegos, associava uma coisa a outra. Sem problema. Atrasava minha tarefa, mas ganhava meu dia com sua alegria de criança crescida. Estes últimos dias, tem estado mais quieta com a falta da filha-amiga.

Nós Dois (4)
Penélope

Penélope foi o ser mais amoroso que conheci. Bem… talvez gatos não pudessem dizer o mesmo. Mas ela amava tanto aos humanos que eu tentava encampar a mesma visão. Em vão. Mas sou imperfeito. Ela era perfeita, da cor negra perfeita, sempre disposta a brincar e receber a contrapartida em massagens no dorso e pescoço. Recebia os novos membros do grupo, nesse caso, sempre alguma cadela rejeitada por aqueles que levam seus preconceitos muito a sério, com a guarda protetora de uma mãe. A Rainha da nossa família viu minhas filhas crescerem e doou-se com amor e dor para tornar nossa vida mais terna possível. Já velhinha, nos causou preocupação de membro da família. Fizemos todos os esforços possíveis para tornar seus últimos dias mais confortáveis. Nós a queríamos entre nós. Talvez fosse egoísmo – amor egoísta. Ela nos amava e sabia que faria a falta que faz. Resistiu o quanto pode. Quando finalmente se entregou, eu estava ao seu lado… foi tão pouco por tanta dedicação que devotou a nós.

Nós Dois (5)
Lola

Lola gosta de dormir. Interesseira, não importa com quem. Quer apenas encostar seu corpo do lado de alguém e se sentir protegida. Apesar de seu egoísmo, basta olhar para nós – olhos nos olhos – para nos rendermos. Encerra sua chantagem com lambidas para garantir sua conquista. Em sua atual fase preguiçosa, nem parece que foi encontrada por minhas filhas correndo de um lado para o outro da avenida, totalmente desorientada, em desabaladas carreiras. “Corra, Lola, corra!”. Ganhou seu nome. As meninas a trouxeram para cuidarmos um pouco dela para depois doá-la. Na época, uma delas namorava um rapaz que a quis como mascote. Decidimos que ficaria com ele. O casal – minha filha e ele – a tratava como a uma filha. Quando se separaram, como seu cuidador foi para outro Estado, ela começou a passar parte do tempo conosco e uma parte na casa da “avó”, mãe do rapaz – guarda compartilhada. Hoje, vive conosco e faz visitas ocasionais à outra família. Lola é uma sobrevivente.

Nós Dois (6)
Sandy & Dona Madalena

Sandy viveu conosco desde pequena. Quer dizer, ela nunca cresceu o suficiente sequer para um poodle, raça da qual devia descender.  Fazia visitas a casa ao lado até que decidiu não voltar mais. Como a passagem de um terreno para o outro era livre, não foi difícil. Na verdade, os dois terrenos pertenciam a nossa família. Nós morávamos em uma casa, em outra, minha mãe. Ardilosamente, Dona Madalena foi cooptando a Sandy através de subornos na forma de comidinhas, petiscos e muito, muito amor. Minha mãe era um ser que tinha o dedo verde, falava com as plantas, amava os animais. Ao mesmo tempo, conseguia reunir em torno de si pessoas que apenas em sua presença conseguiam se tolerar. Sandy, aos poucos foi se tornando tão territorial que tentava impedir que os próprios filhos humanos beijassem a mãe. Quando Dona Madalena adoeceu definitivamente, após um tempo de internação, veio a falecer. Durante esse período, ela passou todo o tempo junto ao portão, esperando a sua volta. Certo dia, ela desapareceu. Apesar de nossas buscas, nunca mais a vimos. Foi em busca de seu grande amor…

Nós dois (8)
Dorô

Dorô – Dourada – amor de todos nós, da Família Ortega. Não podia deixar de falar de você. Sim, vale infringir as regras e ultrapassar a postagem das seis fotos para homenageá-la. Filha única da Lua – sua mãe – como que surgida por magia da noite, foi a nosso xodó, antes mesmo da Penélope. Amiga-filha-irmã, ajudou a Tânia a encontrar  sua conexão com os cães, quando adoeceu, já velha. Tânia começou a entender que esses seres se expressavam de uma maneira diferente, por gestos sutis e olhares profundos. Isso a comoveu definitivamente. E se tentamos, todos nós, compreender qual seria o papel (em nossa mentalidade utilitarista) dos cães, suponho que seja a de nos ensinar a amarmos sem entender o porquê. Amor, sendo amor, por amor…

Participam dessa interação

Ale Helga | Maria Vitória | Mariana Gouveia | Lunna Guedes

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5 thoughts on “Projeto Fotográfico 6 On 6 / Nós Dois / Nós Todos

  1. Com a fluidez e o aconchego próprios às águas, seu texto nos permite chegar perto de cada um desses seres especiais. Deliciosa leitura!

    1. Agradeço a perspectiva do seu olhar, Maria! Quis prestar homenagens merecidas a eles e, de modo indireto, a nós, por podermos de aceitar diferentes tipos de amor.

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